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Especiais Selectus nº 5937

Uruguai – O setor lácteo pede política de Estado

Produção/UR – Apesar de todos os incentivos, como o foram em seu momento as garantias para ajudar as fazendas leiteiras e mantê-las produzindo, o setor lácteo Uruguai continua afundando.

Fonte: El País – Tradução livre: Terra Viva
Uruguai – O setor lácteo pede política de Estado

O produtor é teimoso por natureza e sabe que produzir leite é um risco, mas, nunca pensa em cruzar os braços. As vacas são sua vida e sem vacas não tem leite.

Até 2014 o setor local vinha com crescimento anual de 4%, mas nos últimos cinco anos, exceto a produção da OLAM (investimento neozelandês) e o mega tambo de Bulgheroni (Estancias del Lago), o setor teve queda de 13 a 15% no volume de leite produzido. O dado foi apresentado na semana passada pela diretoria do Instituto Nacional do Leite (Inale) e de alguma forma era esperado, não somente pelos produtores que desapareceram, mas também pelo aumento do envio de vacas para o corte.

Entre maio de 2017 e abril de 2018, foram abatidas o recorde de 77.652 cabeças. Foi o maior volume acumulado em 12 meses desde 2010. Segundo os dados oficiais, o rebanho de leite enviado para corte subiu 46%.

Reunião

Os produtores de leite pedem ao governo a adoção de plano de longo prazo para voltar a colocar o setor no caminho do crescimento. Na reunião a ser realizada no Inale as entidades representativas dos produtores apresentarão algumas ideias. Reconhecem que o Poder Executivo quer ajudar, mas hoje a prioridade é outra e não querem ficar olhando o trem passar. Irão propor caminhos para que o setor lácteo volte a ficar de pé.

O recém empossado presidente do Inale, Álvaro Lapido, assegurou a El País que está trabalhando para recuperar o negócio leiteiro e disse estar “muito preocupado com a queda da produção”.

O trabalho do Executivo está focado na análise da devolução de impostos indiretos às exportações de lácteos, em buscar mecanismos para baixar os custos de energia nas fazendas, em ações para refinanciar a indústria de laticínios, que também está endividada e em dificuldades, assim como algumas medidas para melhorar o mecanismo dos campos de recria.

Nos últimos meses surgiu uma luz fim do túnel. O câmbio começa a ajudar os produtores, depois de serem castigados com uma desvalorização que causou o aumento dos preços de insumos básicos como as rações. No período citado começou haver margem, medido em pesos, que é melhor para o produtor. O poder de compra do produtor melhorou 1% em maio e o preço do leite subiu 19% (em relação a maio de 2019). Também é certo que os custos em peso subiram 18%, segundo dados do Inale.

Soluções

Os produtores não conseguem investir, e o que é pior, o desânimo vem aumentando entre a categoria. As margens são pequenas e todo investimento que é feito, resulta em menor produção de leite por vaca. As entidades que representam os produtores de leite insistem que estão cansadas de diagnósticos.

Por onde passam as soluções? Segundo a visão de Justino Zavala, diretor da Associação dos Produtores de Canelones, a solução “passa por definir que tipo de segmento quer o Uruguai e como vamos nos inserir no mundo”.

O dirigente esclareceu para El País que “se tudo depende do produtor tirar leite cada dia mais barato, chega um ponto em que não é mais possível aguentar”, e alertou: “atualmente está muito difícil”.

Zavala, igual outros dirigentes, reconhecem que existe tecnologia aprovada e validade no Uruguai “para produzir leite a US$ 0,24 por litro. É um desenvolvimento muito avançado no Uruguai, mas requer investimento muito importante em cada propriedade. Estes modelos projetam aumentar a quantidade de vaca por hectare”. Este aumento demanda obras de estradas, praças de alimentação, pastagens e fórmulas de alimentação, entre outros investimentos que implicam dinheiro.

“Para dar esse passo o produtor precisa várias coisas. Entre elas, linhas de crédito adequadas, não créditos com prazos de dois ou três anos como os que oferecem hoje o Banco República, e também acreditar no projeto. Entretanto o produtor está desanimado”, disse.

Quedas

O setor lácteo do Uruguai busca sair da crise há quatro anos e só consegue afundar cada vez mais. As fazendas investiam procurando o crescimento, porque era esse o sinal dado pelo mercado. No entanto, de repente, tudo muda.

“Nos prometem coisas sem incentivos. O que propomos agora é elaborar um projeto de médio e longo prazo, que inclua não somente os deveres que os produtores devem cumprir, pois já fizemos o suficiente e temos o que fazer, mas o resto da cadeia também deve cumprir seus deveres”, disse o dirigente.

Zavala foi crítico: “a cadeia láctea funciona bem quando o preço chega ao produtor”. Destacou que o produtor de leite uruguaio é comparado com os da Nova Zelândia e refletiu: “a indústria Uruguai pode comparar com a Nova Zelândia? O estado uruguaio não tem a fazer para melhorar o negócios leiteiro? A redução das tarifas alfandegárias para os lácteos uruguaios e a realização de tratados de livre comércio são pontos cruciais para melhorar os negócios”, admitiu o dirigente da Associação dos Produtores de Canelones.

Segundo sua visão, “não se pode continuar pagando US$ 30 milhões anuais de tarifas”, porque “isso termina repercutindo no bolso do produtor, porque a cadeia funciona reduzindo o elo mais fraco. A indústria que não pode transferir os problemas para os produtores, afunda. Como exemplo temos a Pili e Calcar que estão com sérias dificuldades”, disse Zavala, que é delegado dos produtores no Inale.

O projeto que estão propondo para trazer o setor de volta ao crescimento exige “políticas estatais”. Segundo Zavala, na semana passada, os sindicatos apresentaram apenas algumas ideias, mas, “devemos acatar a visão de consultores externos. Temos que lutar para que a cadeia láctea se recomponha. Precisa ser um projeto de longo prazo que permita um desenvolvimento sustentável. Somente as tarifas alfandegárias, e as ineficiências da indústria representam a diferença de 4 e 5 centavos de dólar no preço do litro de leite que é pago ao produtor uruguaio em relação ao que recebe o produtor neozelandês”.

Para que a leiteria uruguaia volte a crescer é preciso aumentar o número de vacas em produção. “O número de vacas deve crescer entre 5% e 10% anual”, lembrou Zavala.

Já o produtor, sindicalista e assessor do segmento lácteo, Dario Jorcin, admitiu a El País que a leiteria hoje “não tem rentabilidade, ou é mínima. Os pequenos e médios produtores não conseguem renda para poder reinvestir e não poder fazê-lo, de alguma forma, representa um retrocesso”.

Também reconheceu que em todos estes anos faltou para a leiteria Uruguai “um política exterior de redução de tarifas alfandegárias” e hoje, com um mercado mundial diferente e com o desaparecimento de compradores fortes, não é possível deferndermos e valorizar o nosso produto.  

No âmbito interno, os produtores consideram que existe excessos ao longo da cadeia. Como exemplo, Jorcin diz conhecer casos de produtores médios que vendem um quilo de queijo por UY$ 300, [R$ 37,00/kg], mas no supermercado o mesmo queijo vale UY$ 800, [R$ 98,00/kg], e é vendido.

Jorcin questiona que existe uma parte na comercialização de produtos “onde grandes lojas estão fazendo um dano importante ao comércio dos lácteos. Como o mercado é pequeno e as vendas não crescem, o que fazem é aumentar as margens. A população consome igual. Todo o sistema comercial não é bom. Existe muita gente que vende no informal, inclusive empresas pequenas, porque é a únca forma de sobreviver”.

Sindicalistas e produtores concordam que “o futuro é cada vez mais difícil e com maiores incertezas”.   

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