A volta da fome acorda o fantasma da obesidade
Obesidade/Brasil – De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade de 2022, “a obesidade é uma doença crônica, recorrente e multifatorial, presente na Classificação Internacional de Doenças (CID).

É também um significativo fator de risco para inúmeras outras doenças não transmissíveis como diabetes, doenças coronarianas e câncer, dentre outras. Frequentemente, surge cedo na vida, e a obesidade infantil vem sendo um crescente problema de saúde pública nos países de renda média e baixa, onde a prevenção precoce é fundamental.
Para o historiador Jonathan Ablard, do Ithaca College dos Estados Unidos da América (EUA), “a obesidade não surgiu da noite para o dia na América Latina. Ao contrário do que se possa imaginar, está associada à fome, que em tempos de pandemia tem recrudescido globalmente. Segundo estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) lançado em 2020, estimativas conservadoras indicam que mais de 3 bilhões de pessoas no mundo não tinham como bancar uma alimentação saudável, que, em média, custava cinco vezes mais do que uma dieta com alimentos ricos em amido, como a farinha, calórica e carente em nutrientes”.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) indicam que a proporção da população obesa com mais de 20 anos mais que dobrou entre 2003 e 2019, chegando a 26,8%.
E os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do mesmo IBGE mostram que a aquisição domiciliar per capita de alimentos caiu entre 2002 e 2018. Na POF 2002, o volume de aquisição per capita foi de 330 kg; na POF 2008 de 315 kg e na POF 2018 262 kg, com queda mais acentuada no intervalo dos últimos dez anos.
Analisando os dados, percebe-se que os dois grupos de alimentos que tiveram crescimento nas vendas, são também os menos nutritivos.

Se como foi dito pelo historiador Jonathan Ablard, a obesidade está relacionada à fome, e esta, por sua vez, está intrinsecamente ligada ao poder aquisitivo, os dados da POF mostram que o Brasil segue no sentido contrário de solucionar a fome e ter controle sobre a obesidade da população.
Comparando a aquisição de laticínios de 1987 a 2018, verifica-se que houve queda de 70 kg para 32 kg, de 2002 a 2018 houve redução de 17 kg.
Outras categorias essenciais para uma boa nutrição, como carnes e frutas que tiveram algum aumento de consumo entre 2002 e 2008, voltaram a cair em 2018. No entanto, laticínios foi a categoria que apresentou a maior redução.
A próxima tabela mostra a desigualdade na aquisição de laticínios. As duas primeiras faixas de renda não conseguem adquirir nem a metade dos lácteos adquiridos pelas pessoas da faixa de maior renda.

E se o consumo de lácteos for um parâmetro para melhoria da alimentação da população e reverter a tendência da obesidade, muito terá que ser feito. A categoria vem desaparecendo da mesa de mais de 30% dos brasileiros.
Projeções para a prevalência da obesidade em 2030
Nenhum país alcançará os objetivos da Organização Mundial de Saúde sobre a obesidade em 2025 (definido como o Índice de Massa Corporal-IMC), e as taxas de obesidade continuarão a crescer globalmente. Novos dados apresentados pelo Atlas Mundial da Obesidade mostram que, até 2030, está previsto que uma em cada cinco mulheres e um em cada 7 homens estarão obesos (IMC>30kg/m2), representando mais de um bilhão de pessoas.
Mais do que isso, os países estão se distanciando da meta, pois os níveis de obesidade continuam aumentando. Isso é particularmente preocupante em países de renda média e baixa, onde vive o maior contingente de pessoas obesas, e os sistemas de saúde são precários, não estando preparados para tratar eficazmente a obesidade e suas consequências. Além disso, muitos desses países enfrentam simultaneamente, as consequências da desnutrição.
Depois do Brasil comemorar a saída do Mapa da Fome conforme relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de 2014, e liderar a iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025, o país é surpreendido com os alarmantes dados de 2020.
São 116,8 milhões de pessoas emergindo da pandemia com algum grau de insegurança alimentar, conforme pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).
















