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Especiais Selectus nº 6259

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer

Produção/AR – “É um pensamento bastante comum acreditar que a leiteria argentina encontra-se estagnada e não cresce, mas não é bem assim. A evolução desde 1970 até este ano mostra uma curva ascendente de 3% ao ano que se soma aos 7,4% de crescimento do ano passado. Por décadas tivemos um crescimento anual de 2%", destacou o titular do Observatório da Cadeia Láctea Argentina (OCLA), Jorge Giraudo.

Fonte: Fonte: Portalechero – Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: Imagem de Wi Pa por Pixabay
Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer

Nos anos 90 houve grande crescimento, foram incorporadas novas tecnologias e melhores insumos, começou a pagar por qualidade e o Mercosul impulsionou as exportações para o Brasil.

O leite em pó antes de 2000 tinha um preço em torno de US$ 1.600 a tonelada, dobrando na década seguinte. Depois vem uma outra onda de investimentos, levando a crescer 2,1% entre 2016 e 2021.

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Giraudo compara o crescimento da Argentina com o da Nova Zelândia e destaca que desde 1990 até este ano as taxas foram decrescentes de ponta a ponta, abaixo das taxas da Argentina, e crescerão apenas 0,3% este ano. Lá os problemas são o impacto ambiental, falta de mão de obra e de disponibilidade de terras.

Cresce a concentração

Giraudo compartilhou informação recente da Diretoria Nacional da Leiteria destacando uma sensível mudança na produtividade em função da escala da fazenda em nosso país. As explorações de menos de 2 mil litros/dia caíram de 60 para 45,8% e a produção destas fazendas foi reduzida em mais da metade, enquanto que as unidades produtivas de mais de 10 mil litros cresceram em quantidade de fazendas e de leite em quase 6 vezes.

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Giraudo destaca que este é um fenômeno mundial e com maior intensidade nestes últimos anos.

A taxa de crescimento da produção diária média das fazendas argentinas é de 5,4% anual nos últimos quatro anos, ou seja, “é um crescimento muito difícil de ver em outras regiões do mundo”.

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Um dado interessante compartilhado por Giraudo tem a ver com o grau de concentração que existe na indústria de laticínios da Argentina e do mundo. O índice Cr4 mede o grau de concentração da recepção de leite das quatro maiores empresas - que na Argentina são La Serenísima, Saputo, Williner e Punta del Agua – captam 32% do leite para processar. Esse mesmo coeficiente no mundo está entre 50 e 97% e para um exemplo, no Uruguai, a Conaprole capta 70% do leite e na Nova Zelândia 90% vai para a Fonterra, enquanto na Dinamarca e Suécia a Arla Foods concentra 90% e nos Estados Unidos da América (EUA) quatro empresas detêm 90% do processamento de leite.

Outro dado interessante é que no mundo as empresas cooperativas processam pelo menos a metade do leite, enquanto na Argentina este tipo de organização só recebe 5% do leite.

Também em nosso país, entre 30 e 40% do leite é processado com distintos graus de informalidade.

Consumo e exportações

O consumo de leite em nosso país se mantém em torno dos 9 bilhões de litros ano e este ano fecharemos com o consumo médio per capita de 180 litros, com bastante desigualdade: no segmento de maior renda o consumo é em torno de 300 litros per capita, e nas camadas de menor renda o consumo fica abaixo de 50 litros/habitante/ano.

Em relação à composição desse consumo Giraudo disse que “foi primarizado, pois cresceu o consumo de leite fluido, deixando de consumir iogurtes, sobremesas e outras especialidades lácteas. Existe maior consumo de substitutos e isso indica que existe muito espaço para o setor crescer. E a causa está na menor renda das famílias”.

O outro componente da produção é exportado e está em torno de 25%, representando um ano recorde de divisas, US$ 3 bilhões. É nesse segmento que reside o crescimento da leiteria e a única dúvida é se existe um caminho claro para poder crescer, tanto em direitos de exportação, câmbio e outros regulamentos. “Também devemos estar atentos à nossa capacidade instalada que precisa de modernização e investimentos para acompanhar este crescimento. E a prova está na capacidade de processamento que terá no ano que vem”, alertou.  

Giraudo também destacou a qualidade do leite que é produzido e compartilhou o seguinte quadro:

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Afirmou que precisa melhorar o teor de proteína devido aos parâmetros de composição requeridos pelos padrões internacionais para o leite em pó e assegurou que neste quesito tem muito o que melhorar.

Em relação à rentabilidade, o diretor do Ocla destacou que a rentabilidade está em torno de 2%, três pontos abaixo da rentabilidade que requer o negócio para seu crescimento.

E o negócio, como está?

“Em relação a este tema creio que existe um forte desequilíbrio posto que na Argentina sobram vantagens comparativas: existe clima, condições ambientais ótimas, água em quantidade e qualidade, existe superfície e mão de obra disponível, conhecimento do negócio e profissionais bastante capacitados”, disse o analista. A isto se opõem dificuldades em torno das vantagens competitivas, e para corroborar, Giraudo se referiu à inflação, a alta pressão tributária, financiamentos caros, defasagem cambial, preços relativos distorcidos, legislação trabalhista, infraestrutura das estradas que não ajudam em momentos de clima adverso, falta de segurança no transporte da produção e uma burocracia administrativa muito onerosa.

Com este panorama, Giraudo se pergunta se o problema reside na boa transmissão entre os elos da cadeia ou se deve à existência de interferências introduzindo ruídos no negócio. Ele opta por esta segunda opção ao destacar que são as interferências que fazem com que a cadeia não perceba o valor que gera e que através dela não haja distribuição equitativa.  

Para comprovar o que fala ele cita uma publicação da Rede Internacional de Especialistas (IFCN) que leva em conta os custos internos e os preços internacionais do leite:

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Pode ser observado neste mapa a linha vermelha que combina o preço internacional do leite e o Índice IFCN, e em verde o registro do negócio leiteiro para o produtor argentino. “Com isto se observa que a indústria poderia pagar 43 centavos de dólar e o produtor local recebe 34 centavos na mesma moeda”, compara.

O próximo gráfico, o titular do Ocla mostra as interferências observadas na cadeia láctea:

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

E o seguinte é o cenário sem “interferências”.

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

Por último e para situar o problema das interferências na cadeia láctea, Giraudo encerra o dilema com o seguinte gráfico:

Argentina – Apesar das interferências a leiteria trabalha para crescer
     Imagem Portalechero 

O problema não é o tamanho da produção, nem tampouco reside em uma distribuição injusta. A responsabilidade é das interferências vindas dos tributos, do câmbio e do baixo nível de renda das famílias como os elementos mais destacados, que impedem os elos da produção e a indústrias receber o que lhes corresponderia. A isto, acrescenta Giraudo, se somam os subsídios cruzados feitos, que em muitos casos a bonificação por qualidade do leite seja transferida para ajudar os pequenos produtores a permanecerem no sistema.

Por último, Giraudo citou um breve texto da Universidad de Cornell:

“De nada serve pensar em modelo único de produção. Haverá pequenas ou grandes empresas, altamente produtivas ou diversificadas e multifuncionais para satisfazer as demandas locais, e todas deveriam conseguir dois objetivos:

- Em primeiro lugar tomar decisões para reduzir emissões e mitigar o efeito estufa; - e em segundo lugar todas estas empresas deverão ser parte de sua comunidade e integrar o território.

Deverão adotar um foco proativo administrativo para que diferentes públicos compreendam o papel que as empresas representam. Isto não pode ser separado de projetos de bem-estar animal, a organização do trabalho e as condições sociais dos empregados, da adoção de manejo de águas residuais e a adoção de técnicas agronômicas mais amigáveis, entre outras questões.

O produtor deve ser aberto ao mundo e mostrar de forma transparente e honesta sua empresa que produz alimentos para sua comunidade. Sem torres de marfim inacessíveis nem catedrais no deserto, as fazendas leiteiras devem ser integradas ao seu território e ser parte da comunidade onde está instalada”.  

Acesse aqui a matéria na íntegra

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