A crise de preços dos lácteos já passou para a história?
Efeito China - A crise dos preços dos lácteos já passou para a história? A China aumenta suas compras e move o mercado, apesar do Covid-19.

O setor lácteo busca levantar-se depois de tantos golpes. No mercado internacional de lácteos existem sinais alentadores e os preços melhoraram, especialmente para produtos como leite em pó. Por outro lado, as importações da China, o grande comprador de lácteos do mundo e de outros alimentos, cresceram 27,8% no primeiro bimestre do ano, segundo o relatório da consultoria Economía Láctea publicado no jornal La Nación.
As compras da China chegaram a 715.562 toneladas. Ao analisar os produtos mais comprados pela China, a consultoria mostrou que ela adquiriu 9% mais volume de leite em pó, 63% mais leite fluido e os soros e derivados tiveram incrementos de 50% em volumes. Os leites fluidos passaram de 96.341 toneladas no primeiro semestre de 2020 para 156.066 toneladas no primeiro bimestre de 2021, destacou a consultoria.
Esta maior demanda da China é o que está fazendo subir os preços no mundo e tanto os produtores, como os analistas, avaliam que a crise de preços já ficou para trás e o futuro é promissor.
Otimistas por natureza e fiéis à sua vocação, os produtores estão acostumados com as ondas, tanto climáticas, como de preços, que asfixiam sua atividade. A boa notícia é que o setor lácteo uruguaio, além do endividamento, também continua com sinais de recuperação.
“O futuro parece ser mais promissor”, avalia o assessor do setor lácteo da federação uruguaia Fucrea, Mario Fossatti. Os preços por litro oscilam entre um mínimo de US$ 0,25 e máximo de US$ 0,33.
A margem de flutuação é entre US$ 0,8 e US$ 0,9 por litro. “Esta margem continuará existindo, porque é uma variabilidade característica dos mercados internacionais”, admitiu Fossatti. Em 2014 a China aumentou acentuadamente a compra de lácteos, fazendo subir os preços, mas um ano depois os valores despencaram.
“Hoje os preços estão firmes e deverão se manter assim, pelo menos por alguns meses mais, dependendo um pouco de como está a indústria”, disse o assessor. Agora, cuidado! O Uruguai exporta em torno de 65% dos lácteos que produz e os outros 35% vão para o mercado interno, que hoje, devido ao Covid-19, está mais fraco em relação aos anos anteriores.
Fossatti reconheceu que para poder manter o estado de alerta, nestes momentos difíceis, “houve mudanças no interior das empresas que continuaram produzindo”, mas, fora alguns problemas pontuais de seca, “o clima foi muito generoso”.
Entre as mudanças que ocorreram na produção, o assessor da Fucrea disse que uma foi dar maior importância às pastagens e redução no volume de concentrados. “Nos registros da Fucrea aparecem claramente que os gastos com concentrados caíram, sem cair a produtividade. Isso se explica porque o foco passou a ser a produção de mais pastos”, afirmou o técnico. Essa medida possibilitou reduzir os custos sem aumentar o endividamento. “Existe um processo interno na produção e um processo externo de estabilidade de preços em torno dos US$ 0,30, e tudo indica que poderá ficar acima deste valor, pelo menos até a primavera”, analisou Fossatti.
Concorrência
No mercado interno, outro bom sinal é que existe concorrência pelo leite e fora a Conaprole, as outras indústrias estão captando volumes maiores. Têm necessidade porque possuem custos fixos e precisam produzir mais.
Cario Jorcín, produtor e assessor de várias fazendas leiteiras em Colonia, concordou que as perspectivas são boas, mas, alertou que “também é preciso observar a evolução do dólar e dos custos na produção de leite”.
Segundo ele, alguma coisa precisa melhorar. Hoje “o comportamento da indústria nacional não reflete os aumentos do mercado internacional. A expectativa é de que os preços do leite em março ou abril tenham aumento”. “Os custos subiram”, principalmente concentrados, fertilizantes e grãos, além de todos os agroquímicos.
Jorcín disse que analisando os valores internacionais, o preço do leite ao produtor deveria subir bastante. “Essa melhora que se vê no mercado internacional, não chegou ao mercado interno”. Lembrou que a Conaprole aumentou 5% entre novembro de 2020 e janeiro de 2021. Assim, “estamos muito longe dos aumentos internacionais, que tiveram valorizações seguidas. Seguramente as próximas vendas ao exterior terão preços melhores e isso fará com que a indústria volte a melhorar os preços no mercado interno”, analisou Jorcín, expressando a expectativa dos produtores de receberem preços melhores.
Com a elevação do preço dos grãos, a agricultura passa a ser um grande concorrente do setor leiteiro. “Mesmo exigindo grande capital em maquinário e terras que estão raras e caras”, disse Jorín.
“De qualquer forma, nós no campo continuamos lutando, mas tem que haver uma política diferente para o setor”, afirmou.
Entre as mudanças produtivas decorrentes da crise, o assessor em produção explicou que em Colonia houve uma forte intensificação das fazendas leiteiras. “Foram adotados galpões com camas mais aquecidas, com grandes investimentos no conforto das vacas e uma estrutura ambientalmente correta. Muitos produtores construíram galpões, estão fazendo compostagem com o esterco e alguns resíduos vegetais. Entre 10 e 12 empreendimentos da região mostram projetos interessantes, mas com os preços atuais dos grãos, perdem um pouco a competividade”, explicou Jorcín.
















