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Especiais Selectus nº 6031

A posição da Índia no setor global de laticínios está ameaçada?

Índia – Os protestos de agricultores e sindicatos de todo o país fizeram com que a Índia não assinasse o Tratado Regional de Parceria Econômica (RCEP) com a Indonésia, Tailândia, Singapura, Malásia, Filipinas, Vietnã, Mianmar, Brunei, Camboja, Laos, Austrália, China, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.

Fonte: Dairy Global – Tradução livre: www.terraviva.com.br
A posição da Índia no setor global de laticínios está ameaçada?

No entanto, analistas acreditam que o principal motivo veio do próprio setor lácteo. A ìndia é o maior produtor mundial de leite batendo o recorde de 187 milhões de toneladas em 2019, e pretendendo chegar a 330 milhões de toneladas em 2034.

Opinião de Especialista

Para entender a real razão, conversamos com um especialista em laticínios em Pune, Maharashtra, que preferiu se manter no anonimato. “Com o RCEP, leite e produtos lácteos da Austrália e Nova Zelândia seriam despejados na Índia. Depois disso, a compra de leite dos produtores da Índia iria diminuir”, disse o especialista.

“Além disso, a Índia possui atualmente toneladas de leite desnatado em estoque. Acredito que o governo não deveria tomar qualquer decisão de ingressar no RCEP por alguns anos. Se o governo assinar este acordo, os produtores de leite sofrerão muito”.

Embora a Índia seja o maior produtor e consumidor mundial de leite, sua participação nas exportações de leite é insignificante, 172.000 toneladas, segundo estimativas, em comparação com a Nova Zelândia, que é membro do RCEP e se tornará a maior beneficiária. Atualmente exporta 3,5 milhões de toneladas de leite.

Importações e Exportações

Como a maioria do leite indiano é consumido no mercado doméstico, as companhias poderiam importar de companhias estrangeiras. Quando os preços fossem mais baixos, os produtores de leite locais sofreriam, prejudicando a subsistência de agricultores locais.

Na Índia, mais de 100 milhões de pessoas estão associadas ao setor de laticínios. A destruição desse setor ao assinar um acordo de livre comércio seria uma decisão que nenhum governo poderia tomar. Se o governo quiser avançar, o setor lácteo deve ficar fora do acordo, disse o especialista.

Se outros países do RCEP também estiverem de olho no mercado indiano, a produção doméstica entraria em colapso total e a Índia se tornaria um importador líquido de lácteos às custas dos produtores de leite indianos, enfatizou o especialista.

Um produtor de leite de Nasik, Rajendra Pawar, disse que seria desastroso se a Índia assinasse o RCEP – como um agricultor pode competir com os importadores? Os comerciantes inundariam o mercado com leite e derivados baratos. Independentemente do que o governo diga, os pequenos produtores de leite e pequenas cooperativas seriam dizimados em poucos anos. O RCEP destruiria nosso sistema cooperativo que levou muitas década para ser construído.   

O economista BM Kumaraswamy disse que o acordo representava uma grande ameaça ao cooperativismo do setor lácteo do país. Ao longo de anos, a Índia construiu um sistema de cooperativas sociais envolvendo pequenos produtores de leite. As cooperativas são de propriedade desses pequenos produtores, e não são empresas. Já na Nova Zelândia, são empresas e 90% do leite que o país produz é exportado.

Se o leite e derivados pudessem ser importados, isso levaria a uma concorrência muito acirrada. Os preços do leite entrariam em colapso, podendo causa graves danos ao nosso sistema cooperativo de produção e distribuição de leite no país, acrescentou Kumaraswamy.

Desemprego e pobreza

A organização de apoio ao governo, Swadeshi Jagran Manch (SJM), se opôs à assinatura do RCEP e afirmou que aumentaria o desemprego e a pobreza. Falando sobre este desenvolvimento, uma fonte da Parsi Dairy Farm, com sede em Mumbai, disse: “O atual governo central tomou uma decisão sábia ao desistir do RCEP, ou então teria tirado do mercado muitas pequenas fazendas de leite que estão fornecendo para cidades de nível 1 e nível 2”.

De acordo com um relatório sobre o setor de laticínios da Índia, seria insensata a importação de leite pelos próximo 20 anos, pois o país será responsável por mais de 60% das taxas de crescimento da produção mundial de leite nos próximo 15 anos, e será responsável por 31% da produção mundial de leite, contra 20% atualmente, e 14% no início do ano de 2000.

O relatório mostra que o Conselho Nacional para o Desenvolvimento do Setor Lácteo (NDDB) e a NITI Aayog, um Conselho que dá orientação sobre políticas ao governo indiano, estabeleceu como meta, alcançar o desenvolvimento sustentável.

O diretor administrativo RS Sodhi da Cooperativa de laticínios Gujarat, também conhecida como Amul, a maior cooperativa da Índia, também escreveu uma carta ao Ministério da Indústria e Comércio, destacando que “A situação seria inimaginável se o governo da Índia assinasse acordos similares aos da Europa e Estados Unidos que dão acesso aos seus mercados”.

A carta mencionou os interesses comerciais da Nova Zelândia e o verdadeiro motivo pelo qual ela estava pressionando: ela produz 14 vezes mais leite do que o seu consumo doméstico e está em busca de novos mercados. A Índia, sendo o maior consumidor de leite do mundo, tem sido um mercado-alvo nas duas últimas décadas.

E análises de tendências de longo prazo elaboradas pelo NDDB, Ministério da Agricultura, NITI Aayog, Perspectivas da FAO-OCDE de 2019-2028, e da Rede Internacional de Comparação de Fazendas (IFCN) projetam que a produção e o consumo de leite na Índia continuarão a crescer nas próximas duas décadas e até mais, disse Jetha Bharawd, Vice-Presidente da Amul.

A indústria de laticínios é muito importante para a economia rural indiana e é de longe o grande responsável pelo Produto Interno Bruto (PIB) agrícola. Uma pesquisa econômica realizada entre 2018-19 detectou que mais de 50% do setor lácteo indiano é gerido por um setor não organizado.

Em sua carta, Raju Shetti, fundador da Swabhimani Shetkari Sangatha (SSS), de Maharashtra disse: “Ao assinar o RCEP, a Índia abriria as portas para as importações de lácteos baratos. Se a Índia assinar, milhões de produtores de leite estarão ameaçados”.

A Índia atualmente é responsável por 20% da produção mundial e nos últimos 4 anos cresceu à taxa média de 6,4% ao ano, contra uma taxa de crescimento mundial de 1,7%.

Shetti também enfatizou que marcas locais como Amul, Mahanand, Aarey, Gokul e outras não seriam capazes de concorrer com empresas estrangeiras.  

Foto de capa: Pixabay.com

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