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Especiais Selectus nº 5873

Preços do leite no campo devem se manter sustentados no curto prazo

Leite no campo - A crise do coronavírus se dá, para o setor lácteo, num momento atípico de preços elevados no campo por conta da oferta enxuta.

Fonte: Cepea

O agravamento da pandemia pode acentuar a tendência altista por causar um choque de demanda, pelo menos no curtíssimo prazo. O primeiro trimestre do ano, período sazonal de safra, foi marcado pela oferta limitada de leite e acirramento na disputa entre indústrias para a compra de matéria-prima. A instabilidade climática e as fortes variações nos regimes de chuvas durante a última primavera e neste verão prejudicaram o crescimento da atividade. Ao mesmo tempo, a valorização do dólar desestimulou importações de lácteos pelas indústrias.

Com produção enxuta, a expectativa antes do anúncio da pandemia do coronavírus era de que o movimento de alta de preços no campo continuasse em abril. De um lado, essa perspectiva ganha força dado o aumento acelerado da demanda na segunda quinzena de março por leite UHT. As recomendações de isolamento e a necessidade de menor circulação geraram incertezas nos consumidores acerca da manutenção do abastecimento e as redes atacadistas e varejistas intensificaram a procura pelo derivado a partir de 17 de março.

Assim, de 2 a 31 de março, o preço do leite UHT recebido pelas indústrias em negociações no estado de São Paulo saltou de R$ 2,46/litro para R$ 3,06/litro, avanço significativo de 24,8%. No entanto, impor novas altas aos canais de distribuição se tornou mais difícil a partir de 26 de março, quando a demanda das redes atacadistas e varejistas deu sinais de estabilização frente aos preços das gôndolas. Por outro lado, com o isolamento da população e fechamento de redes de serviço e alimentação, o consumo de lácteos refrigerados como queijos – que respondem por mais de 30% da alocação do leite nas indústrias – foi muito prejudicado.

A pesquisa diária do Cepea mostrou que o preço médio da muçarela recebido pelas indústrias em negociações no estado de São Paulo caiu 0,97% em março. A dificuldade de escoamento de queijos coloca em risco o faturamento de pequenas e médias indústrias. Na semana passada, algumas já paralisaram suas atividades e suspenderam a compra de leite no campo. A generalização desse cenário pode intensificar a queda de preços da muçarela. Mas os impactos serão sentidos em toda a cadeia láctea, pois o mercado de queijos é um dos mais dinâmicos do setor, devido às baixas barreiras à entrada, e funciona como um equilibrador da oferta no campo – afetando o mercado do leite spot (negociação entre indústrias). Os preços do leite spot em Minas Gerais caíram 4,4% neste início de primeira quinzena de abril, diante da incerteza dos agentes em se arriscar a recompor estoques num contexto em que não há boas perspectivas para o consumo de longo prazo, em decorrência da diminuição da renda da população. Assim, a diminuição no consumo de queijos e a saída de players do mercado podem resultar em um cenário em que a oferta de leite no campo vai superar a demanda.

Isso pode gerar um efeito em cascata, levando à redução dos preços no campo e à volatilidade das cotações. Nesse sentido, previsões sobre a captação de leite em abril e o comportamento das cotações em maio ficam difíceis, pois o processo de formação de preços ao produtor ocorre a partir da venda dos derivados. E, neste momento, o longo horizonte de incerteza pode incentivar agentes de indústrias a tomar decisões focados no curtíssimo prazo.

Por Caio Monteiro, Juliana Ferraz, Natália Grigol, Regina Mazzini e Thiago Bernardino de Carvalho

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