Chile – Qual o impacto da crise na indústria de alimentos?
Chile – Frequentemente visto como o oásis da estabilidade na América Latina, o Chile tem sido palco de violentos protestos sociais e greves por mais de um mês. Analisamos como a indústria de alimentos tem sido afetada.
O Chile entra na sexta semana de protestos violentos que levaram mais de 20 pessoas à morte e milhares de feridos. A convulsão pegou muitos de surpresa – pois o Chile é visto como um dos mais politicamente estáveis e economicamente prósperos países da América Latina – mas, os protestos não estavam longe de aparecer em um país que, de acordo com o Banco Mundial, está entre os dez mais desiguais do mundo.
Com um custo de vida equivalente a alguns países da Europa Ocidental, muitos chilenos lutam para sobreviver. O salário mínimo é o equivalente a 400 euros por mês, enquanto as pensões pagas pelo estado são mínimas e os elevados custos com saúde são proibitivos para a maioria da população.
“O Chile é o pôster da região em crescimento econômico, berço da economia neoliberal e do progresso. Abriga as rendas mais elevadas, mas também um dos maiores índices de pobreza, um país que adotou política de centro e transição eleitoral gradual para retornar à democracia em 1990”, disse John Price, diretor da Americas Market Intelligente (AMI). “Se o Chile está vulnerável para tal colapso, com certeza toda a região também”.
Nos últimos dois meses, Equador, Bolívia e, mais recentemente a Colômbia, também sofreram violentos distúrbios.
“O sistema de distribuição de alimentos do Chile é absolutamente incapaz de atender às necessidades da população”, diz o Slow Food.

A ruptura da estabilidade econômica do Chile mostra isso.
Para Sebastián Piñera, o bilionário presidente do Chile, cuja fortuna é avaliada em US$ 2,8 bilhões, de acordo com o Ranking Forbes dos mais ricos, sufocar essa angústia do eleitor que foi desencadeada por um ligeiro aumento nas tarifas de metrô na capital Santiago, tem sido uma tarefa difícil. Até agora, todas as propostas do governo falharam e os protestos continuam a ter um impacto significativo na economia do país – o peso chileno caiu para a menor cotação histórica – e na vida cotidiana de sua população.
Segundo a organização não governamental, sem fins lucrativos, Slow Food Chile, o sistema alimentar do país é responsável por despertar, pelo menos em parte, a ira dos chilenos.
“As famílias urbanas não têm acesso a alimentos limpos e saudáveis, a preços proporcionais à renda”, diz. “Do outro lado, as famílias produtoras são incapazes de vender seus produtos a preços compatíveis com os custos de produção. Ao mesmo tempo, grande quantidade é perdida, depois da colheita, em armazéns e na cadeia de distribuição. Isso demonstra a inabilidade do sistema agrícola e das longas cadeias varejistas de atender as necessidades da população. Essa crise mostra a urgência em fazer importantes mudanças na política de alimentos do país”.
Porto interrompe a exportação de frutas

Esta semana, os estivadores de San Antonio, o principal porto para exportação de frutas, anunciaram nova greve de dois dias, juntando-se à greve mais ampla que já ocorre em todo o país, porque o governo não atendeu as reivindicações. A greve ocorre quando o chile entra na safra de verão.
A indústria de alimentos está sendo impactada pelos distúrbios.
Este mês, a Câmara de Comércio Chilena, a Sociedade Nacional Agrícola e a associação industrial (SOFOFA) reviram para menos as expectativas econômicas para 2019 e 2020, e tanto a SNA, quanto a SOFOFA pediram o fim da violência.
Em carta aberta assinada por muitas associações comerciais, incluindo os grupos de alimentos e bebidas de alimentos do Chile, Salmon Chile e Supermercado de Chile, a SOFOFA disse que estaria apoiando o governo na elaboração de um acordo de paz para restaurar a ordem pública e promover a justiça social. Também juntou pedidos de uma nova constituição: A atual constituição do Chile é de 1981, quando o país era governado pelo ditador de direita, Augusto Pinochet.
Francisco Gana, chefe do departamento de estudos do SNA, disse que o setor agrícola foi mais afetado pela seca em curso no Chile, do que propriamente pelos protestos, “dado que a demanda por alimentos é mais inelástica [do que outros setores]”. No entanto Gana observou que havia “ligeira incerteza na logística de alguns setores agrícolas”.
Supermercados sofrem saques e incêndios
O último elo da cadeia de suprimento, o setor varejista do país tem sido duramente atingido pela violência. Este mês, o Walmart Chile pediu proteção policial, porque os saques estavam “causando danos econômicos”. O Walmart disse que o governo não está cumprindo o seu dever de fornecer segurança e manter a ordem pública para permitir que o hipermercado exerça livremente uma atividade econômica, um direito consagrado na constituição do país.
A cadeia norte-americana detém 44% do mercado chileno de distribuição, com as marcas Líder, Express, aCuenta e Ekono.
A empresa disse que não irá pedir recuperação de danos ao governo chileno, mas afirmou, em comunicado que registrou 1.200 saques; e 28 incêndios em suas lojas. Dezesse de suas 400 instalações no Chile foram destruídas.
















