Inflação sobe e Argentina volta a endurecer política
Inflação/AR - A inflação na Argentina subiu mais do que o esperado em fevereiro e levou o Banco Central argentino a endurecer seu plano de política monetária.
O índice de preços ao consumidor subiu 3,8% em fevereiro em relação a janeiro, a maior alta desde outubro, quando a inflação subiu 5,4%, segundo informou ontem Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). Na comparação com fevereiro de 2018, a alta da inflação foi de 51,3%. Alberto Ramos, economista do banco Goldman Sachs, diz que essa alta ficou acima da expectativa de 3,6% para o mês, depois de um aumento de 2,9% em janeiro.

"A dinâmica recessiva da demanda doméstica deverá gradualmente exercer uma força sobre a inflação, mas a inércia e os aumentos das tarifas dos serviços públicos devem manter a inflação alta no primeiro semestre", argumenta Ramos, ao lembrar que relatório do Banco Central espera mediana da inflação de 31,9% para este ano é de 20,3% para 2020. A maior alta da inflação se deu em itens como água, eletricidade, gás e combustíveis, de 6,4%, o que reflete a elevação das tarifas dos serviços públicos anunciada no fim do ano passado pelo governo do presidente Mauricio Macri. A elevação dos preços de alimentos, de 5,7%, também pesou. Martín Tetaz, economista da Universidade de La Plata, observa que as tarifas de serviço público vão continuar a subir até abril, segundo cronograma do governo. Por isso, a inflação só começaria a cair a partir de junho. Diante da alta da inflação, o presidente do Banco Central, Guido Sandleris, anunciou um novo plano para controlar a taxa de câmbio e frear a inflação neste ano. Sandleris disse que a meta de crescimento zero da base monetária - notas em poder do público e depósitos nos bancos - será estendida até o fim deste ano. Em setembro, quando assumiu o comando do BC, Sandleris havia anunciado que o plano de não crescimento da base monetária ficaria em vigor até junho deste ano. Ele anunciou ainda a suspensão do ajuste de 6% da base monetária em junho. Esse aumento estava previsto por conta da antecipação do 13º salário, no meio do ano. Com isso, o BC quer evitar um aumento na quantidade de pesos em circulação, o que pressionaria a inflação. "Precisamos ser persistentes, entendendo que não há resultados imediatos", disse. "Mas, sem dúvida, haverá resultados." Sandleris definiu que os limites da banda de livre flutuação para o dólar serão ajustados a uma taxa de 1,75% por mês no terceiro trimestre, após um ajuste de 3% entre outubro e dezembro de 2018 e de 2% no primeiro trimestre de 2019. "Com isso, o BC dá mais possibilidade de o dólar baixar ou de o peso se fortalecer sem que comecem grandes intervenções de compra de dólares por parte do Banco Central", diz Tetaz. Mais cedo, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, afirmou que, a partir de abril, o governo realizará leilões diários de US$ 60 milhões de um total de US$ 9,6 bilhões disponíveis para isso. Tetaz ressalta que o BC errou ao reduzir os juros antes de ver uma queda sustentada da inflação. Depois de três meses de desaceleração dos preços ao consumidor no fim ano passado, o BC baixou a taxa de juros para cerca de 44% em fevereiro. Mas foi forçado a elevá-la a 63% nesta semana. "O equilíbrio monetário é muito frágil. Em meio à redução dos juros, começaram a vir dados de inflação piores do que se esperava", afirma. Para ele, a autoridade monetária deve ser mais prudente e baixar os juros apenas quando estiver claro que está em curso um processo de desinflação. Ramos afirma que um cenário difícil - caracterizado por altas taxas de inflação, expectativas de inflação não estabilizadas, inflação inercial em indexação de preços e reajustes salariais, aumentos de tarifas e incerteza política em um ano eleitoral - "exige máxima cautela" no ajuste de curto prazo das taxas de juros. Além de evitar nova corrida ao dólar, Macri precisa baixar rápido a inflação para os eleitores sentirem uma melhora na economia. "Macri joga com dois elementos: o presente e o futuro. Para vencer a eleição presidencial de outubro, ele precisa que os argentinos sintam que a economia está melhorando, mas também que acreditem que com ele o futuro será melhor", disse Pablo Knopoff, do Instituto Isonomia, em Buenos Aires. "Ou seja, precisam não apenas ver que podem comprar mais, mas que poderão comprar mais."
















