Porque um longo e incomum período de preços estáveis do leite ao nível mundial?
Leite – A Rede Internacional de Comparação Agropecuária (IFCN, sigla em inglês) é uma rede global de pesquisadores e consultores em economia leiteira. Em 2019, pesquisadores de mais de 100 países e mais de 140 companhias ligadas ao agronegócio são membros da rede. A IFCN criou a melhor compreensão do mundo dos laticínios por 20 anos.
O Relatório IFCN Dairy é publicado, anualmente, desde o ano 2000 e tornou-se uma publicação de referência para pesquisadores e empresas envolvidas na cadeia de laticínios. Permite obter uma visão holística global da indústria e serve como uma base sólida de fatos para discussões e decisões estratégicas.
O relatório da IFCN destaca que:
- este será o ano de menor crescimento da produção de leite desde 2013. Como isso não se traduziu em aumentos no preço do leite ao produtor, a IFCN identifica uma queda estrutural no crescimento da demanda como um dos motivos.
- As tendências de produção de leite por regiões são altamente diversas e dinâmicas.
- A estrutura dinâmica das fazendas leiteiras impulsiona o oferta de leite e a velocidade das mudanças é subestimada. A IFCN recomenda usar o crescimento anual de produção de leite por fazenda/ano como um indicador. Na União Europeia (UE) e nos Estados Unidos as fazendas cresceram 8% ao ano.
- A chave para mudanças na estrutura está nas condições econômicas da fazenda leiteira de se integrar à estrutura da economia de escala.
Baixo crescimento na produção de leite em 2019
2018 foi um ano médio de crescimento da produção de leite nos 120 países analisados pelo Relatório IFCN Dairy com algumas regiões sendo afetadas por eventos negativos como a seca na União Europeia (UE).
2019 desponta como um ano de baixo crescimento ou + 8,3 mil toneladas de SCM* (com base no monitoramento mensal de 65 países), por várias razões. De um lado, o crescimento parece diminuir devido ao menor crescimento da produção de leite na ìndia, causada pelos preços estáveis do leite e aumento no preço da alimentação animal, o que resulta no empobrecimento da economia agrícola. O Hemisfério Sul foi afetado por eventos climáticos adversos, como a seca na Austrália, enquanto a Argentina se viu afetada por problemas econômicos internos, e a desvalorização da moeda, o que elevou significativamente os custos de produção.
A IFCN monitora a produção de leite global com periodicidade anual e mensal, incluindo estimativas em tempo real para fornecer atualizações mais rápidas ao mercado, o que é crucial para entender a evolução do preço do leite.
Produção mundial de leite e tendências de preços
O indicador do preço mundial do leite do IFCN representa o preço teórico mundial do leite ao produtor, que se foi mantido no nível médio de US$ 35/100 kg desde 2017, um incomum período longo de estabilidade. Isto aponta para um equilíbrio entre a oferta e a demanda. Baixo crescimento na produção de leite geralmente leva ao aumento no preço do leite. Ainda assim, os indicadores atuais apontam para uma estabilidade contínua (US$ 36/100kg), significando que a demanda estrutural está modificando diante do preço estável do petróleo e os baixos preços dos alimentos.

Dois momentos chave para o preço mundial do leite
Olhando para trás, o Índice IFCN do Preço Mundial do Leite sofreu alteração significativa em 2006, quando o nível de preços quase que duplicou devido ao aumento dos preços adjacentes das commodities. O preço do petróleo, por exemplo, aumentou mais de 200%. Este nível de preços durou até 2016, com um Índice IFCN médio de US$ 40/100 kg. Desde então, a média do Índice IFCN foi caindo para chegar à média atual de US$ 35/100 kg de leite, mas desta vez, existem diferentes dinâmicas em jogo. Foi produzido um importante distanciamento entre o nível de preços da manteiga e da proteína, impulsionado pelo aumento da demanda global pela manteiga de leite.

Desenvolvimentos regionais na produção de leite
Para acompanhar a produção de leite ao nível mundial, as tendências regionais devem ser monitoradas e entendidas. As regiões com a produção mais alta são o Sul da Ásia, com Índia e Paquistão, e Europa Ocidental que juntos produziram 47% do leite, em 2018. A dinâmica divergiu amplamente por região e a IFCN observou que as regiões fortes cresceram e as regiões fracas diminuíram entre 3% e 5% a cada ano. No geral, a evolução da produção de leite pode ser descrita em quatro cenários diferentes:
1 – “Foguete” – como a Ilha Sul da Nova Zelândia que teve taxas de crescimento anual de 5 a 10% graças a investimentos;
2- “Retrocesso” – como Japão caracterizado por um declínio constante causado pela mudança geracional;
3 – “Montanhas” – na China, tem a Mongólia Interior como exemplo. Apresentou crescimento seguido por um declínio devido à economia agrícola desafiadora;
4 – “Despertador” – como a Irlanda, com uma produção estável, seguida de rápido crescimento como resultado de mudanças políticas.
A compreensão desses padrões é chave para planejar eficazmente o desenvolvimento de políticas e o processamento de produtos lácteos, assim como investimentos e insumos agrícolas.

Estrutura da unidade produtiva
A mudança estrutural da fazenda é um dos fatores determinantes para a produção de leite, que por sua vez irá determinar a economia agrícola e de escala. Está é a razão pela qual a IFCN coleta dados detalhados da estrutura das unidades produtores de mais de 100 países. Utiliza modelos de 176 fazendas típicas em 67 regiões de 54 países, para compreender e analisar o custo de produção do leite e acompanhar os atores através da cadeia de valor para elaborar estratégias corretas.
Ao nível mundial existem 116 milhões de fazendas com a média de 3,2 cabeças de vacas, mas, estas passam por profundas mudanças estruturais que muitas vezes são subestimadas por sua velocidade.
Os mercados emergentes como Brasil ainda se encontram no começo da transformação com 60% de suas propriedades de pequena escala. A UE deu um passo adiante com um número quase igual de fazendas médias e grandes, e agora pergunta como encontrar recursos para apoiar estas propriedades. Nos Estados Unidos houve mais mudança estrutural: as fazendas grandes já são maioria, o que cria o problema da resiliência agrícola em tempos de preços baixos. Nesse contexto, deve-se ter em mente que, embora as fazendas deixem o mercado, a fazenda média na UE e nos EUA registram aumento anual de 8% na produção de leite entre 2013-2018, graças ao aumento da rentabilidade animal e o tamanho do rebanho.

*Para tornar possível comparar diferentes leites, a IFCN converte todo o leite em seus elementos naturais ou Sólidos Corrigidos do Leite (Solid corrected milk-SCM). Isso padroniza o leite em 4% de matéria gorda e 3,3% de proteína. A fórmula aplicada é:
SCM = produção de leite * (% matéria gorda + % de proteína)/7,3
















