Semana mundial sem lácteos
Veganos – Promovida por grupos veganos e vegetarianos recentemente foi lançada uma campanha mundial para não consumir lácteos durante uma semana, entre os dias 22 e 29 de agosto.

Com frases como “a indústria láctea está destruindo o planeta”, a iniciativa visa incentivar leites vegetais, promovendo supostamente uma melhor saúde para a população e o cuidado com o meio ambiente.
O que podemos dizer a respeito? Em primeiro lugar, no Chile, em março deste ano, foi publicado no Diário Oficial modificação no Regulamento Sanitário dos Alimentos (RSA) definindo como leite o produto da glândula mamária de um bovino e o que aqui se promove deveria chamar “bebida vegetal”, portanto, este movimento vai contra a regulamentação sanitária chilena e além do mais, estão sendo comparados produtos que não possuem as mesmas propriedades.
Do ponto de vista da saúde relacionam uma série de informações (sem mencionar fontes) acerca dos problemas provocados pelo consumo de lácteos. De uns tempos para cá existe a sensação de que os problemas de alergias alimentares e intolerância à lactose aumentaram, mas, isto não é um fenômeno novo. De fato, quando o homem domesticou os primeiros ruminantes e começou a consumir leite, 11 mil anos A.C. também neles, ocorreu uma seleção natural, onde os que tinham a capacidade de aproveitar e digerir a lactose, eram mais fortes e transmitiam essas características à sua descendência, até os nossos dias.
No Chile, segundo estudos da Universidade Católica, cerca de 50% dos adultos apresentam sintomas clínicos de intolerância à lactose (ou má absorção da lactose). No entanto, existem outras patologias que geram sintomas similares como cólon irritável, enfermidades celíacas ou infecções intestinais crônicas, como a giardíase. A única forma de estar 100% seguro de ter intolerância à lactose é através de um teste que atesta condição (lactase-deficiente) ou de bom absorvedor de lactose (lactase-persistente). Portanto, não é que o leite de vaca faça mal a toda a população, mas, que existem certos grupos que apresentam este problema. Por isso, a indústria desenvolveu também produtos especiais, sem lactose, para que estes consumidores possam aproveitar as vantagens nutritivas do leite.
Com efeito, o leite é um dos alimentos mais completos, tendo água, açúcar, manteiga e proteínas de alta qualidade nutricional, fornecendo além do cálcio para os ossos, outros micronutrientes como magnésio, selênio, um importante teor de iodo, especialmente para mulheres em idade fértil e vitaminas como B2, A, B9 e vitamina D, entre outras.
Entre os macronutrientes, nos últimos anos a manteiga do leite tem sido fonte de pesquisas pela presença de certos ácidos graxos poli-insaturados presentes no leite de animais alimentados em sistemas de pastagens como no Sul do Chile. De fato, nos laboratórios do Instituto Nacional de Engenharia Agropecuária (INIA) foi determinado que o leite de vaca produzido no Sul do Chile apresenta elevado teor de ácido linoleico conjugado (CLA) que possui características funcionais à saúde das pessoas. Já foi demonstrado, tanto em estudos epidemiológicos, como clínicos em animais e humanos que o consumo de lácteos reduz o risco de certos tipos de câncer, tem efeitos antiaterogênicos (boa saúde cardiovascular), previne a obesidade já que ajuda a regular o peso e previne a diabete tipo 2, a artrite reumatoide, a asma e enfermidades degenerativas associadas à idade, entre outras (Den Hartigh, 2019, Preble et al., 2019). Portanto a apresentação de informações de origem duvidosa contrasta com as recentes evidências científicas, que nos levam a continuar confiando nos guias de alimentação saudável que recomendam consumir 3 porções de lácteos por dia, dentro de uma dieta balanceada, como a mediterrânea.
Os dados da última pesquisa nacional de consumo no Chile, indicam que o país consome a metade do recomendado, ou seja, 1,5 porções (ENCA, 2016), e segundo as últimas estimativas de consumo de lácteos isto equivale a aproximadamente 150 litros per capita ano (ODEPA, 2018), longe das estatísticas de consumo de lácteos em países desenvolvidos que superam 200 litros ao ano. Isto é especialmente grave se o relacionamos com a última pesquisa nacional de saúde (ENS, 2017), onde 74% da população está com sobrepeso. Além disso, segundo dados de uma pesquisa realizada pelo Consórcio Leiteiro em parceria com a Universidade do Chile, mostra que somente 39% das crianças pesquisadas consomem as três porções recomendadas.
Com esta evidência, fica claro que no Chile estamos longe de termos taxas de consumo de lácteos dos países desenvolvidos, a população tem sérios problemas de sobrepeso e as crianças consomem o mínimo de lácteos para um desenvolvimento saudável. Por tudo isso, chamar para evitar o consumo de lácteos é uma ideia não recomendável, nem saudável, para a nossa realidade.
Do ponto de vista ambiental, se faz menção a que a agricultura e a pecuária seriam as principais causadoras das mudanças climáticas, mais até do que outras fontes industriais. Isto não é verdade. Ao nível mundial a pecuária e a agricultura representam 24% das emissões. No Chile, isto é mais claro ainda, já que o setor de energia é o que mais produz mais gases de efeito estufa, com 78% do total (MMA, 2019) e somente 10,5% é procedente do setor agrícola e pecuário. Além disso, não é considerado o aspecto positivo em prol do solo e das pastagens para a captura de carbono.
O INIA trabalha em alternativas de adaptação e mitigação das emissões de gases de efeito estufa, sendo atualmente líder latino-americano nessa matéria.
Finalmente e de importância social, já que a nível mundial cerca de 150 milhões de famílias se dedicam à produção de leite, no Chile, esta atividade gera 160 mil postos de trabalho direto e a produção anual alcança 2,5 bilhões de litros aproximadamente, concentrada nas regiões de Los Ríos e Los Lagos, dinamizando a economia rural.
Se levarmos em consideração todos estes argumentos, o lançamento do desafio de não consumir produtos lácteos por uma semana, deveria ser reavaliado e poderia ser substituído pelo desafio de “uma semana compartilhando os carros ou usando apenas o transporte público”.
















