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Especiais Selectus nº 5601

Argentina – Soro de leite se transforma em tinta

Inovação – Incentivado por um drama de sua história pessoal, Guillermo Corbalán, de Tucumã, decidiu criar pinturas amigáveis com o meio ambiente e com a saúde. Sua fórmula consiste em reutilizar o soro de leite desperdiçado pela indústria de queijos.

Fonte: Portalechero – Tradução livre: www.terraviva.com.br

Guillermo Javier Corbalán foi criado entre o negócio de pintura de seus pais. Aos cinco anos soube que um vizinho de seu bairro havia falecido devido ao contato direto com os sintéticos tóxicos que usava em seu trabalho como pintor de automóveis. Motivado por essa recordação traumática, quando adulto se propôs a criar tintas que não afetassem a saúde. Enquanto pesquisava sobre o assunto, este contador de Tucumã imaginou que os resíduos lácteos descartados pela indústria de queijos poderiam servir como matéria-prima para cumprir tal propósito.

Engenheiros químicos oriundos de Córdoba analisaram sua ideia e concordaram que era possível. Assim, Corbalán iniciou “Biopinturas Argentinas” em 2015, um empreendimento de pinturas ecológicas cujo objetivo é o cuidado com o meio-ambiente e seus habitantes. “Eu não tive essa ideia do nada. Existe toda uma história por detrás que justifica”, declara o proprietário da empresa, que já possui a licença da “Marca Tucumán”, certificação outorgada pelo Instituto de Desenvolvimento Produtivo da província (IDEP).

A inovação deste projeto consiste em “eliminar” a toxidade das pinturas de látex branco. A partir do aproveitamento do soro de leite descartado, os criados deste empreendimento fabricam tinta livre de resina sintética (com base no petróleo, altamente tóxica e contaminante, segundo Corbalán). A chave deste processo químico está na transformação desses resíduos lácteos em proteínas concentradas que “são ecológicas e saudáveis”. “Depois de terminar os estudos, o bicho do empreendedorismo me picou, e consegui isto que está crescendo agora”, explica o dono da empresa.

Argentina – Soro de leite se transforma em tinta

Biopinturas argentinas

Durante a entrevista que concedeu ao jornal, o contador repete em distintas oportunidades a importância de “transitar pelo caminho empreendedor”. Pesquisas, licenças, provas de mercado, vendas e exportação são as cinco fases dentro desse trajeto. “Biopinturas Argentinas” está perto de começar a terceira etapa, segundo sua análise. “Agora vamos montar a planta piloto. Serão feitas pinturas em pequena escala para depois testar no mercado”, informa Corbalán. Para ele, apesar de já estar provado cientificamente, os produtos deste empreendimento ainda não são comercializados.

Chegar até hoje não foi nada fácil. Depois da ideia, a primeira dificuldade foi encontrar engenheiros químicos em Tucumán capazes de acompanhar o projeto. Esse panorama o levou a buscar alternativas em outras províncias. Foi assim que conheceu profissionais da área na Universidade Nacional de Río Cuarto, em Córdoba, dispostos a trabalhar na elaboração das tintas ecológicas. “Firmamos um contrato de confidencialidade para resguardar a fórmula e quatro anos atrás iniciamos as pesquisas. Todos os finais de semana viajávamos para nos reunir e avaliar os avanços”, lembra.

Uma vez elaborado o produto, os sócios da “Biopinturas Argentinas” levaram uma amostra a um centro tecnológico de Buenos Aires. Obtiveram um certificado demonstrando a qualidade e as propriedades sustentáveis. Corbalán iniciou oficialmente a empresa, cujas oficinas estão localizadas no bairro El Bosque da capital. “Então, junto com minha irmã, que também é contadora, meu irmão, que é licenciado em Marketing, e a meus pais, que já tinham experiência com pinturas. Também foi incorporado à equipe Sebastián Díaz, que é engenheiro químico daqui”, relata Corbalán.

Um produto premiado

A obtenção da tinta natural – cujo processo de elaboração foi finalizado em Tucumán – valeu à “Biopinturas Argentinas”, numerosos reconhecimentos nacionais e estaduais que facilitaram as licenças para autorizar a produção do produto, que não encaixava dentro de nenhuma categoria devido à sua curiosa inovação. “Isto não se encontra na nomenclatura fiscal. Por sorte, conseguimos as licenças já que contava com premiações”, comenta Corbalán. Segundo o empreendedor, seu produto químico de base láctea é o sexto do tipo em todo o mundo, mas, é o primeiro a conseguir uma textura capaz de pintar. A invenção encontra-se em vias de ser patenteada.

Em 2016, a equipe obteve um Fonsoft (fundo de promoção da indústria de software) para o desenvolvimento de um sistema de controle informatizado para as “biopinturas”. No ano seguinte recebeu o selo “Proesus” (Programa de Empreendedores para o Desenvolvimento Sustentável) do então Ministério do Meio Ambiente da Argentina. Depois de receber a licença da “Marca Tucumán” por parte do IDEP, a marca foi beneficiada com um empréstimo do Fundo Semilla, programa nacional destinado a atender empreendedores. E finalmente, em outubro do ano passado, participaram do “Foro Internacional Climactivo”, organizado pelo Ministério da Saúde da Província, onde também foram premiados.

Ao referir-se, novamente, sobre esse “caminho empreendedor”, Corbalán conta de forma anedótica: “enviei cartas a agentes de governo, pessoas reconhecidas e até ao Papa. É assim: para começar, existem muitas portas que se abrem, outras que se fecham, e outras indiferentes. Como dizem os chineses, é preciso reconhecer que não se trata de falhar, mas de aprender”.

Questionado sobre os custos de produção de sua inovação, o empreendedor assegura que elaborar suas tintas é “mais competitivo”. “Além de cuidar da saúde das pessoas, por ser um produto composto por aditivos ecológicos e naturais, elimina a resina sintéticas, que é o que encarece o látex. Então acaba sendo mais barato”, destaca.

O ano de 2019 será um período repleto de desafios para “Biopinturas Argentinas”. Além de montar a fábrica piloto e de lançar sua invenção do mercado, Corbalán já avalia a possibilidade de produzir em cores, sua tinta ecológica. Seu horizonte é ainda mais ambicioso: já tem pedidos de todo o país, e assegura que estão dadas as condições para que sua marca se projeta internacionalmente.

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