Reino Unido é incapaz de administrar 'brexit'; uma calamidade vem aí
Brexit - O Reino Unido um dia desfrutou de reputação merecida pelo pragmatismo e estabilidade de suas políticas. Isso não sobreviverá ao estrago espetacular que o "brexit", (a saída da União Europeia) está causando.
Recorde o que aconteceu. Em um referendo desnecessário, uma pequena maioria escolheu uma opção que não era capaz de compreender, porque ela não havia sido explicada. Em seguida, uma nova primeira-ministra que desconhecia as complexidades do processo adotou a interpretação mais dura possível sobre o resultado. Ela deflagrou o processo de saída em março de 2017, antes de formular uma posição detalhada de negociação. Passados cerca de 70 dias, perdeu tanto sua maioria no Parlamento quanto sua autoridade, em uma eleição desnecessária.
O Partido Conservador está tão dividido em relação a essa saída que já não serve como um partido coerente de governo. Como resultado, é questionável que os compromissos necessários quanto ao dinheiro que o Reino Unido deve à União Europeia, os direitos dos cidadãos da União Europeia residentes no país e o papel do Tribunal de Justiça da União Europeia conquistem aprovação no Parlamento. O Partido Trabalhista não oferece alternativa salvadora: deseja uma nova eleição geral e está tão dividido quanto os conservadores com relação ao brexit.
Enquanto isso, Michel Barnier, que comanda o lado da União Europeia nas negociações de saída, explica pacientemente, como se estivesse falando com crianças desatentas, que "o relógio está correndo". No fim de março de 2019, o Reino Unido deixará a União Europeia. Para que as empresas façam planos sensatos quanto a isso, precisam saber dentro de um ano o que acontecerá. Se o objetivo for ratificar um acordo, ele precisa estar concluído até o fim de 2018.
Além disso, como a União Europeia vem insistindo, "não haverá acordo sobre qualquer coisa até que haja acordo sobre todas as coisas". Barnier também argumenta que o Reino Unido precisa reconhecer que um acordo de saída requererá pagamento substancial. Essa foi sua resposta a Boris Johnson, o secretário do Exterior britânico, que declarou no Parlamento que "os montantes que vi... me parecem extorsivos e creio que 'pode esperar sentado' seria uma resposta completamente apropriada". Se o Reino Unido insistir nisso, certamente não haverá acordo, bom ou ruim.
O governo britânico não preparou o terreno para qualquer dos compromissos necessários. E provavelmente não seria capaz de fazê-lo porque número significativo dos partidários do brexit não consegue compreender a fraqueza da posição do Reino Unido: os danos causados pela perda de acesso ao mercado da União Europeia, por exemplo, seriam muito piores para o Reino Unido do que para a união, já que a economia desta é cinco vezes maior que a britânica.
Pior: muitos dos partidários do brexit parecem preparados para sair sem acordo. Mas nesse caso, aos olhos de seus mais importantes parceiros econômicos, o Reino Unido estaria descumprindo suas obrigações legais. A União Europeia é uma instituição de leis. Seus membros veriam uma violação como essa da parte do Reino Unido como hedionda.
Quem quer que acredite que, depois disso, os membros da União Europeia cooperariam quanto a interesses vitais do Reino Unido, como o livre fluxo de bens ou as conexões aéreas, está sonhando. Amyas Morse, que comanda o Escritório Nacional de Auditoria britânico, apontou que o Reino Unido pode ser incapaz de processar o número vastamente ampliado de declarações aduaneiras que receberá depois do brexit. Mas isso é uma visão modesta dos riscos. O que acontecerá com os procedimentos do outro lado?
O governo britânico está entre a cruz e a espada. No prazo disponível, será quase impossível chegar a acordo quanto ao, e implementar arranjos sensatos para o, divórcio, para o comércio em longo prazo, e para o período de transição. Mas seria ainda mais impossível não fazê-lo. Quem sabe que alternativa vencerá? Meu palpite agora é que sair sem acordo é o desfecho mais provável.
Cedo ou tarde, os mercados compreenderão o fato. Isso pode desestabilizar a libra e causar novo pico inflacionário. Uma situação como essa criaria um dilema doloroso para o Banco da Inglaterra. A chegada [do trabalhista] Jeremy Corbyn ao posto de primeiro-ministro se tornaria mais crível. Depois de tanta insensatez, como os conservadores poderiam continuar vestindo o manto da sobriedade e competência?
O que aconteceria, então? Muitos dos adeptos da permanência na União Europeia esperam que, à medida que a economia piore, as pesquisas de opinião pública que mostram paridade entre os partidários da saída e da permanência venham a favorecer o segundo grupo, o que causaria uma grande virada nas opiniões do Parlamento. Não vejo objeção constitucional a um referendo sobre os termos (ou a ausência de termos) para o brexit. Referendos são apenas uma (perigosa) ferramenta política. Mas um novo referendo seria explosivo, politicamente, e agravaria ainda mais as divisões quanto à questão europeia.
O Reino Unido se tornou tão ridículo porque a questão da União Europeia provoca reações fortes em porções significativos do organismo político. Os defensores do brexit são os jacobinos da política britânica. Sua intensidade ideológica devastou o Partido Conservador e reduziu a política do país à sua atual desordem. Como resultado, não existe maneira confortável de abandonar o Brexit e tampouco maneira plausível de administrá-lo com tranquilidade.
Os deuses enlouquecem aqueles a quem pretendem destruir. É o que está acontecendo agora quanto ao brexit.
















